publicidade

Pesquisar no Site


Dica do professor Dilson Catarino

Feliz Ano-Novo!

Veja mais
A língua no dia a dia
Voltar

Intertexto x paródia

14/03/2014

Esses dias li uma entrevista de Luiz Antonio de Assis Brasil, que comanda a Oficina de Escrita Criativa há 25 anos na PUC do Rio Grande do Sul, onde é Secretário de Cultura. Diz ele que a única forma de começar a escrever literatura é copiando o estilo de algum autor já consagrado: começa-se imitando o autor, depois se encontra o próprio caminho e estilo. Essa imitação, na teoria literária, tem nome: intertexto. Segundo o dicionário Houaiss, intertexto é o “texto literário preexistente a outro texto e que é aproveitado, por absorção e transformação, na elaboração deste, ou que o influencia”.

 

Quando eu era jovem, as composições de Zé Ramalho eram o intertexto de minhas poesias. Fui muito influenciado por suas palavras durante vários anos. Depois tive outros intertextos: as poesias de Carlos Drummond de Andrade, de Cecília Meireles, de T. S. Eliot, de Fernando Pessoa, entre outros.

 

Acredito que todos que se arriscam a escrever, seja em prosa ou em versos, têm seus intertextos. É lógico que quem lê bastante, absorve as ideias dos textos lidos e as transforma em ideias próprias. É como quando se lê uma notícia no jornal: absorve-se o teor dela. Mais tarde, ao comentá-la com alguém, aproveita algumas ideias do texto lido, transforma outras em ideias originais e produz o seu próprio texto, oral, adicionando opiniões que não constavam do texto lido. Isso é natural. Também o é na literatura, nas artes plásticas, nas músicas, no teatro, nos textos jornalísticos, na vida em geral.

 

Por isso é importante ler. Por isso os adultos devem incentivar os jovens à leitura. Quem lê bastante e atentamente, pensa melhor e tem mais opção de opinião. Os intertextos ajudam a meditar no que se há de fazer, ajudam a refletir sobre a vida, a ponderar mais. Os jovens, na escola, precisam aprender a produzir textos, sejam mentais, orais ou por escrito. Quanto maior o número de intertextos, mais facilidade eles terão para elaborar suas próprias produções, pois maior será a quantidade de influências que eles terão; maior, então, será o aproveitamento e a absorção.

 

Na maioria dos casos a influência é imperceptível. Pode-se notar uma semelhança de estilos entre os autores ou entre seus textos, um certo ar de parecença, uma sensação de déjà vu (expressão francesa que significa ‘sensação de já ter visto algo que se está vendo pela primeira vez’). Muitas vezes a influência é percebida facilmente: basta ler o texto que já vem o intertexto à mente.

 

Um exemplo bastante famoso de influência é o poema de Casimiro de Abreu, escrito em Lisboa, em 1857, cujo intertexto é o de Gonçalves Dias, escrito em Coimbra, em 1843. Ambos se chamam “Canção do Exílio”. Gonçalves Dias escreveu o seguinte:

 

- “Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o sabiá; / As aves que aqui gorjeiam, / Não gorjeiam como lá (...) Minha terra tem primores, / Que tais não encontro eu cá; / Em cismar – sozinho, à noite / Mais prazer encontro eu lá”.

 

Casimiro de Abreu, isto:

 

- “Se eu tenho de morrer na flor dos anos, / Meu Deus! não seja já; / Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde, / Cantar o sabiá! (...) O país estrangeiro mais belezas / Do que a pátria não tem”.

 

Não há como ler este sem se lembrar daquele.

 

Esse exemplo apresentado denota o que chamamos na teoria literária de paráfrase, que é o desenvolvimento de um texto a partir de outro, conservando-se as ideias originais deste. Há, porém, outro tipo de influência, de aproveitamento, cujo autor intenciona não somente desenvolver o seu texto, conservando as mesmas ideias de outrem, mas aplicar um tom jocoso, engraçado. A sua intenção é provocar o riso, é ser irônico, sarcástico às vezes. Dá-se o nome a isso de paródia.

 

Um dos grandes parodiadores que houve em nossa literatura, no início do séc. XX, foi Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, cujo pseudônimo era Juó Bananere. Ele escrevia usando um verdadeiro dialeto ítalo-paulista, denominado de português macarrônico. Recriava as mais famosas poesias brasileiras, ironizando os costumes e a política brasileira. Talvez a mais famosa seja a paródia de “Lembranças de morrer”, de Álvares de Azevedo, que tem os seguintes versos:

 

- “Eu deixo a vida como deixa o tédio do deserto o poento caminheiro – Como as horas de um longo pesadelo, que se desfaz ao dobre de um sineiro”.

 

Bananere parodiou assim:

 

- “io dexo o vita come um tirburero, chi dexa as ruas sê cavá frigueiz; come um pobri d’um indisgraziato, chi giá andô na Centrale arguna veiz (...) só levo una sodade unicamente: é du chopigno lá du Bar Baró”. (‘Tirburero’ é tilbureiro, o mesmo que cocheiro)

 

Isso também é importante aos jovens: aprender a brincar um pouco com as coisas ‘sérias’. Parodiar a sisudez da vida é interessante até para se desestressar um pouco. Tente você também.

© Gramática On-line • 1999 - 2017• Todos os direitos reservados ao autor. Proibida cópia total ou parcial dos conteúdos.