Gramática On-line | Por Prof. Dílson Catarino

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Ultima atualização: 31 MAR 2011

/ OPINIÃO

A música nas aulas de Português

Não existe um projeto para se trabalhar a música em sala de aula. A música em sala de aula não é uma disciplina pontual, no sentido de se realizar com exatidão no tempo em que foi combinado, exata, precisa. A música em sala de aula é pura sensibilidade.

O professor deve pesquisar incessantemente, ouvindo todos os dias as músicas que emocionam seus alunos, ou mesmo aquelas que eles ouvem por ouvir, mas que não os emocionam; é o caso das músicas tocadas em rádio, a denominada, por Umberto Eco, música gastronômica, ou seja, música para engolir. Deve também ouvir as músicas de sua época e as músicas brasileiras universais, ou seja, deve ouvir todos os tipos de música para poder trabalhar com elas em sala de aula. Tem de procurar, em cada música, algum aspecto gramatical que possa aproveitar em sua aula, para enriquecer o conteúco dela.

A cada aula, deve procurar trabalhar com uma música diferente e, a cada ano, renovar o repertório para acompanhar os sucessos e, assim, tocar os alunos. Caso contrário, a música poderá atrapalhar o trabalho do professor, pois pode transformar-se, para os alunos, em mais um trabalho cansativo, maçante. Passará a ser interessante para os jovens quando o for para o professor. Se este pesquisar de fato, mostrará energia, vontade, entusiasmo, e aqueles se contaminarão e julgarão o trabalho edificante.

Peguemos, como exemplo, a música Eternas Ondas, de Zé Ramalho que diz Quanto tempo temos antes de voltarem aquelas ondas. Como ficaria a letra caso invertêssemos os termos voltarem e aquelas ondas? A maioria pensaria em responder: Quanto tempo temos antes daquelas ondas voltarem, não é mesmo? Pode até ser, mas não está adequada a frase, pois há inexistência de relação entre sujeito e preposição, ou seja, sujeito jamais pode ser encabeçado por preposição, e o termo aquelas ondas funciona como sujeito do verbo voltar, pois quem volta são as ondas. Quando isso ocorrer, ou seja, quando o sujeito for antecedido de preposição, eles não se aglutinam, por isso, o certo é Quanto tempo temos antes de aquelas ondas voltarem, e aproveito para explicar o uso do infinitivo flexionado: quando o sujeito de um verbo no infinitivo (verbo terminado em ar, er ou ir) estiver no plural e aparecer ao lado do verbo, este terá de ficar também no plural, ou seja, flexionado, por isso voltarem no plural. A tempo: sujeito é o elemento responsável pela ação, praticando-a ou sofrendo-a.

Em sala de aula é a mesma coisa. Deve-se ficar antenado no dia a dia, e, em cada música que ouvir, procurar algo para apresentar aos alunos. Eis alguns exemplos:

Malandragem, de Cazuza e Frejat:

O trecho Quem sabe eu ainda sou uma garotinha tem inadequação quanto ao uso do verbo ser: a expressão Quem sabe indica dúvida, hipótese; sou indica fato certo. A indicação de hipótese é feita por meio do tempo chamado presente do subjuntivo: que eu seja. O adequado, então, é Quem sabe eu ainda seja uma garotinha

Equalize, de Pitty:

O trecho Quando tenta me convencer que eu só fiquei aqui... tem inadequação de regência verbal: o verbo convencer exige a preposição de (Quem convence, convence alguém de algo); o adequado, então, é Quando tenta me convencer de que eu só fiquei aqui...
Também o trecho Porque você sabe o que eu gosto, tem inadequação de regência verbal com pronome relativo: o verbo gostar também exige a preposição de, que deve ser colocada antes do pronome relativo que, por isso o adequado é Voce sabe do que gosto.

Me Chama, de Lobão:

Os versos Aonde está você / me telefona / me chama, me chama, me chama têm três inadequações gramaticais:
1) Uso de onde, aonde e donde: onde significa em algum lugar; aonde, a algum lugar e donde, de algum lugar. Como Lobão usa o verbo estar, e quem está, está em algum lugar, o adequado é Onde está você.
2) Não se deve iniciar frase com pronome oblíquo átono (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes). O adequado, então é telefona-me / chama-me, chama-me, chama-me.
3) Ordem, pedido ou conselho, por meio de verbo, fazem-se da seguinte maneira: se o interlocutor for tratado pelo pronome tu, coloca-se o verbo diante da seguinte frase: Todos os dias tu... e retira-se a letra s do verbo:

Todos os dias tu me telefonas; retira-se a letra s: telefona-me tu.
Todos os dias tu me chamas; retira-se a letra s: chama-me tu.

Se o interlocutor for tratado pelo pronome você, coloca-se o verbo diante da seguinte frase: Espero que você..., sem retirar letra alguma:

Espero que você me telefone: telefone-me você;
Espero que você me chame: chame-me você.

Os versos de Lobão, então, deveriam ser assim escritos para adequá-los ao padrão culto da língua:

Onde está você / telefone-me / chame-me, chame-me, chame-me. Horrível, convenhamos.

Tenho sede, de Dominguinhos e Anastácia, gravada por Gilberto Gil:

O primeiro verso diz Traga-me um copo d'água, tenho sede, e os últimos, Meu coração só pede o teu amor / Se não me deres posso até morrer. Mais uma inadequação de uso do imperativo: Todos os dias tu trazes; retira-se o s: Traze-me um copo d'água. Espero que você traga: Traga-me um copo d'água. Há, portanto, desuniformidade de tratamento. Ou muda o primeiro verso, aplicando a segunda pessoa, tu: Traze-me, ou muda os dois últimos versos, fazendo os termos concordarem com o pronome você, terceira pessoa: Meu coração só pede o seu amor / Se não me der posso até morrer.

Eu sei que vou te amar, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes:

Quando houver dois verbos, e o último estiver no infinitivo (ar, er, ir), no gerúndio (ndo) ou no particípio (ado, ido), ocorre a formação de uma locução verbal. Estando o verbo no infinitivo, há duas maneiras de se colocar o pronome oblíquo: junto do primeiro verbo e depois do infinitivo. Como antes do primeiro verbo, há a conjunção que, que sempre atrai o pronome oblíquo para perto de si, as colocações possíveis do pronome te são as seguintes:

Eu sei que te vou amar.
Eu sei que vou amar-te. Mais uma vez, horríveis, não é mesmo?

Eu nasci há dez mil anos atrás, de Raul Seixas e Paulo Coelho:

Não se deve usar o verbo haver, que indica tempo decorrido com o advérbio atrás, que também indica tempo decorrido. As adequações, então:

Eu nasci há dez mil anos.
Eu nasci dez mil anos atrás.

Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda:

Os primeiros versos dizem Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Essa é uma inadequação extremamente comum nos dias de hoje: o verbo ter usado no sentido de existir. O único verbo que pode substituir existir é o verbo haver. O adequado, então, seria Há dias. Outra inadequação é a ausência da preposição em antes do pronome relativo que: A gente se sente de alguma maneira EM alguns dias, em alguns momentos. Os versos adequados seriam Há dias em que a gente se sente como quem partiu ou morreu.

Qualquer música serve. Todas são escritas em Língua Portuguesa; todas têm substantivos (abstratos ou concretos), adjetivos (restritivos ou explicativos), pronomes, verbos, orações subordinadas e coordenadas. Todas têm adequações gramaticais; algumas têm inadequações. O cuidado que temos de tomar é não usar apenas músicas com inadequações, para não nos transformarmos em professores chatos de português que só se preocupam com erros alheios.

Pode-se trabalhar também com poesias, para não ficar restrito à música:

Vinícius (Soneto de Fidelidade), explicando o uso do pronome mesmo e a inadequação de posto que como locução causal, pois essa expressão indica concessão, tendo o mesmo valor de apesar de que.

Augusto dos Anjos (Vês, ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera), explicando o adequado uso do verbo assistir: quem assiste, assiste a algo, por isso a poesia está adequada.

Cecília Meireles (Eu canto, porque o instante existe), explicando os usos do porquê.

Qualquer poesia também serve. Qualquer notícia de jornal; qualquer artigo de revista. Podemos transformar tudo em assunto para nossas aulas de Português. O segredo é ser curioso, é ter vontade, é trocar informações com outros professores e com os alunos também. É bastante interessante levar uma aparelhagem de som para a sala de aula e apresentar músicas despretensiosamente (música erudita, por exemplo). Aos poucos, os alunos começarão a levar seus discos também. É aí que entra a sensiblidade do professor. Aí é o momento de ouvir a música que o aluno levou com atenção e usá-la como instrumento na aula, chamando a atenção para algum aspecto interessante, para alguma inadequação, etc.

Para isso tudo, há de haver vontade, pois é trabalhoso. Deve-se tomar o cuidado de não usar a música como o elemento mais importante da aula todos os dias, porque, assim, a novidade desaparece, e a música acaba sendo o aborrecimento dos alunos, em vez de se transformar na parte mais interessante.

Enfim, não existe um projeto para usar a música em sala de aula. O que deve existir é um professor Educador, que se preocupe com o desenvolvimento de seus alunos e de si próprio.

 

Prof. Dílson Catarino.

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