Gramática On-line | Por Prof. Dílson Catarino

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Ultima atualização: 14 NOV 2013

/ GRAMÁTICA

Tinha uma pedra no meio do caminho.

 

No meio do caminho tinha uma pedra  

tinha uma pedra no meio do caminho  

tinha uma pedra  

no meio do caminho tinha uma pedra.  

Nunca me esquecerei desse acontecimento  

na vida de minhas retinas tão fatigadas.  

Nunca me esquecerei que no meio do caminho  

tinha uma pedra  

tinha uma pedra no meio do caminho  

no meio do caminho tinha uma pedra

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Carlos Drummond de Andrade, ao escrever “tinha uma pedra no meio do caminho”, utilizou-se da fala popular, esquivando-se da Gramática padrão, já que o verbo ter não deve ser usado no sentido de existir, ocorrer, acontecer. No seu lugar, se CDA quisesse utilizar a norma culta, ele deveria ter usado o verbo haver: havia uma pedra no meio do caminho ou ainda o verbo existir: existia uma pedra no meio do caminho.

 

O verbo haver, quando usado no sentido de existir ou de acontecer, ou ainda quando indicar tempo decorrido é verbo impessoal, ou seja, não tem sujeito. O termo que parece ser o seu sujeito funciona sintaticamente como objeto direto, pois ele, o verbo haver, é transitivo direto. Como ele não tem sujeito, não tem com que concordar. Deve ficar, por isso, na terceira pessoa do singular obrigatoriamente.

Os verbos existir  e acontecer, porém, têm sujeito e com ele concordam, ficando no singular ou no plural conforme o sujeito estiver no singular ou no plural.

 

Veja alguns exemplos:

 

- Houve um maremoto no Japão.

Nesse exemplo, o verbo haver é impessoal, pois significa acontecer. Não tem, então, sujeito. O que parece ser o seu sujeito (um maremoto) é o objeto direto, pois haver é transitivo direto.

- Aconteceu um maremoto no Japão.

O verbo acontecer tem sujeito (um maremoto).

 

- Houve vários terremotos no Japão.

Nesse exemplo, o verbo haver é impessoal, pois significa acontecer. Não tem, então, sujeito. O que parece ser o seu sujeito (vários terremotos) é o objeto direto, pois haver é transitivo direto. Por não ter sujeito, fica na terceira pessoa do singular.

- Aconteceram vários terremotos no Japão.

O verbo acontecer tem sujeito (vários terremotos). Como o sujeito está no plural, o verbo também fica no plural.

 

- Há quatro placas tectônicas sob o Japão.

Nesse exemplo, o verbo haver é impessoal, pois significa existir. Não tem, então, sujeito. O que parece ser o seu sujeito (quatro placas tectônicas) é o objeto direto, pois haver é transitivo direto. Por não ter sujeito, fica na terceira pessoa do singular.

- Existem quatro placas tectônicas sob o Japão.

O verbo existir tem sujeito (quatro placas tectônicas). Como o sujeito está no plural, o verbo também fica no plural.

 

- Há décadas não ocorria terremoto de tal magnitude.

Nesse exemplo, o verbo haver é impessoal, pois indica tempo decorrido. Não tem, então, sujeito. O que parece ser o seu sujeito (terremoto de tal magnitude) é o objeto direto, pois haver é transitivo direto. Por não ter sujeito, fica na terceira pessoa do singular..

 

Mas, por que Carlos Drummond de Andrade escreveu “tinha uma pedra” e não havia uma pedra? Já se explicou que ele se utilizou da fala popular, mas, por que na fala popular se usa ter inadequadamente no lugar de haver?

 

Porque existe uma possibilidade de ter ser usado no lugar de haver adequadamente: quando houver um tempo verbal composto, que é a formação de uma locução verbal cujo verbo auxiliar é ter ou haver e o verbo principal é outro verbo no particípio, verbo terminado em –ado ou em –ido. Por exemplo:

 

- Ele tinha estudado para a prova.

- Ele havia estudado para a prova.

 

Na formação dos tempos verbais compostos, ter e haver têm sujeito e com ele concordam. Se, portanto, as frases apresentadas tivessem como sujeito eles, ficariam assim estruturadas:

 

- Eles tinham estudado para a prova.

- Eles haviam estudado para a prova.

 

Como nesses casos – nos tempos verbais compostos – o verbo ter e o verbo haver são “sinônimos”, alguns cidadãos usam indiscriminadamente ter no lugar de haver em outros sentidos também, cometendo, assim, uma inadequação gramatical. Se o verbo haver não formar locução verbal com outro verbo no particípio e se ele significar existir ou acontecer ou ainda se ele indicar tempo decorrido, não se pode usar no lugar dele o verbo ter, cujo significado – quando não formar locução verbal com outro verbo no particípio – é possuir.

 

Nos exemplos apresentados (Houve um maremoto; Houve vários terremotos e Há quatro placas tectônicas), o verbo ter não poderia ser usado por quem quisesse respeitar a norma culta.

 

Vejamos, agora, este texto:

 

“Duzentos anos de buscas foram necessários para que os portugueses chegassem ao ouro de sua América. Aos espanhóis não se apresentou o problema da procura e pesquisa dos metais preciosos. Assim que desembarcaram no México, na Colômbia ou no Peru, seus olhos mercantis foram ofuscados pelo ouro e prata que os homens da terra ostentavam nas suas armas, adornos e utensílios. Junto às suas civilizações, o gentio havia desenvolvido a exploração e o trabalho dos metais, para eles mais preciosos pelas suas serventias que pelo poder e valor que agregavam ao homem da Europa cristã, de alma lapidada pela cultura ocidental.”

 

No trecho “Junto às suas civilizações, o gentio havia desenvolvido a exploração e o trabalho dos metais” o verbo haver poderia ser substituído por ter?

 

Sim, poderia, pois há a formação de um tempo verbal composto. Observe que o verbo haver acompanha outro verbo no particípio (desenvolvido). Não é, portanto, verbo impessoal. Ao se substituir haver por ter, haverá a formação da seguinte frase: Junto às suas civilizações, o gentio tinha desenvolvido a exploração e o trabalho dos metais.

 

E se o substantivo gentio, cujo significado é, para os cristãos, aquele que professa o paganismo, fosse flexionado no plural, o verbo haver continuaria no singular?

 

Não, pois não é verbo impessoal; por isso concorda com o sujeito. A frase, portanto, ficaria assim estruturada: Junto às suas civilizações, os gentios haviam desenvolvido a exploração e o trabalho dos metais.


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