A cada minuto, quatro coisas vendem-se – Gramática On-line
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A cada minuto, quatro coisas vendem-se

Uma propaganda de televisão diz “A cada um minuto, quatro coisas vendem”. Está errado isso?

 

 

A intenção desta coluna não é corrigir outrens nem se ater a gramatiquices, mas, como é sabido, muitos são os vestibulandos e “concurseiros” que se utilizam dela como um dos objetos de estudos acerca da Gramática da Língua Portuguesa, e algumas instituições usam artigos e reportagens de jornais e revistas e propagandas de rádio e televisão como tema de questões de seus exames.

 

Diante disso, hoje nos ateremos a uma propaganda de televisão e de outdoors espalhados pelas cidades que termina com a seguinte frase: “A cada um minuto, quatro coisas vendem”. Os que se submetem a essas provas podem encontrar testes que perguntem sobre a adequada estrutura sintática da frase apresentada. Passemos, então, à análise dela:

 

De acordo com a gramática padrão, o pronome indefinido “cada” é usado, dentre outras acepções, segundo o dicionário Houaiss, “para indicar repetição ou intervalos regulares dentro de uma série ou conjunto total (geralmente é seguido de numeral cardinal e/ou substantivo que designa ocorrência, processo ou fase de processo, período de tempo, espaço ou algo que se percorre (em sentido literário ou figurativo)”. Por exemplo: “Visita a tia (a) cada três semanas”; “Estava tão bêbado que caía a cada dois passos”.

 

“Designa” também, ainda segundo o Houaiss, “ou considera individual ou distributivamente os elementos, ou grupos de elementos, que formam um conjunto, série ou totalidade (de coisas, animais, pessoas, entidades abstratas). Por exemplo: “Cada árvore desse pomar foi plantada por mim”; “Cada macaco no seu galho”; “A cada amigo deu um presente”.

 

Se “cada” considera individualmente o elemento, claro está que o substantivo que estiver à sua frente é único dentre outros da mesma espécie, sendo desnecessário e inadequado o uso do numeral “um” diante dele: “A cada dia, emagreço mais”, e não “A cada um dia…”; “A cada semana, ele fica mais preparado”, e não “A cada uma semana…”. O adequado, portanto, é “A cada minuto…”, e não “A cada um minuto…”.

 

Outra inadequação gramatical encontra-se no uso do verbo “vender”, que é verbo ativo, ou seja, verbo indicador de que seu sujeito pratica a ação verbal: “Alguém compra algo”.

 

“Coisa” não pratica ação alguma, e sim sofre-a: “Alguma coisa é comprada por alguém”. O sujeito do verbo passa a ser passivo, mas, para que isso ocorra, um termo apassivador tem de ser incluso na frase. Vejamos, então, quais são os termos apassivadores da Língua Portuguesa:

 

O primeiro deles é o que denominamos de “locução verbal passiva”, que é a junção do verbo “ser” – ou “estar” – com outro verbo no particípio – terminado em “-ado” ou “-ido”, dentre outras terminações mais raras, que exija complemento sem preposição. Por exemplo: “Lojas foram invadidas por bandidos”; “Casas são alugadas”; “Histórias são contadas pelos pais”. A frase apresentada poderia, então, ser construída assim: “A cada minuto, quatro coisas são vendidas”.

 

O segundo deles é o que denominamos de “partícula apassivadora”, que é o pronome “se” junto de verbo que exija complemento sem preposição, acompanhado deste complemento. Nesse caso, o verbo ficará no singular ou no plural, concordando com o termo paciente: “Invadiram-se lojas”; “Alugam-se casas”; “Contam-se histórias”. A frase apresentada poderia, então, ser construída assim: “A cada minuto, quatro coisas se vendem” ou “A cada minuto, quatro coisas vendem-se”.

 

Para alguns a frase pode parecer estranha, pois pode ter-se a impressão de que as coisas vendem a si mesmas, porém a gramática padrão não trata de “impressões”, e sim de técnicas, de regras absolutas, e é isso que ela preceitua para os verbos ativos.