Assisto no meu casal. – Gramática On-line

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20 de junho de 2018
Amo-a.
20 de junho de 2018

Assisto no meu casal.

 

Tomás Antônio Gonzaga, posto que tenha nascido em Portugal e vivido no Brasil somente vinte anos (dos sete aos dezessete anos e, depois, dos trinta e oito aos quarenta e oito anos), é um dos principais nomes da Literatura Brasileira da era colonial. No séc. XVIII, escreveu mais de cinco mil versos para compor sua maior obra: Marília de Dirceu, na qual retrata seu amor por Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão, moça que lhe arrebatou o coração ainda que fosse vinte e três anos mais jovem que ele, já quadragenário.

 

Na primeira parte dessa obra, ele manifesta a felicidade de poder ter a seu lado aquela garotinha de dezessete anos, que se teria tornado sua esposa se não houvesse ocorrido o infortúnio de haver sido ele preso e expatriado por participar da Inconfidência Mineira. Na segunda parte, descreve o sofrimento do cárcere no período em que permaneceu no presídio da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro.

 

Nossa intenção aqui, porém, não é contar a história de Tomás Antônio Gonzaga, que, depois da prisão, já em Moçambique, casou-se com Juliana de Sousa Mascarenhas, filha de um rico comerciante de escravos, mas a de analisar os primeiros versos de sua obra, que são os seguintes:

“Eu, Marília, não sou algum vaqueiro

que viva de guardar alheio gado

de tosco trato, de expressões grosseiro

dos frios gelos e dos sóis queimado

Tenho próprio casal* e nele assisto.

Dá-me vinho, fruta, legume, azeite.

Das brancas ovelhinhas tiro o leite

e mais as finas lãs, de que me visto.

Graças, Marília bela, graças à minha estrela”.

(*casal = pequena propriedade rural em que se explora uma cultura lucrativa, vegetal ou animal)

 

Decerto, pouquíssimas pessoas leram esses versos naquela época. Em tempos modernos, jovens do Ensino Médio, vestibulandos, estudantes de letras e professores de Literatura devem lê-los por “força maior”. Não obstante, analisemo-los!

 

No primeiro verso (“Eu, Marília, não sou algum vaqueiro”), surge o pronome indefinido algum, cujo significado na frase é “um, qualquer”. Apesar de significar “qualquer”, este pronome não poderia ser usado na frase apresentada, pois condena-se o uso de “qualquer” com partícula negativa (“não”) ou com a preposição “sem”, a não ser que seja o oposto de “específico”. Por exemplo:

 

– Não pretendo qualquer cargo político.

 

Essa frase só seria adequada ao padrão culto se significasse “Pretendo um cargo político específico”.

 

Voltando aos versos: “algum” poderia ser substituído por “nenhum” (… não sou nenhum vaqueiro) ou deslocado para depois do substantivo (… não sou vaqueiro algum). A gramática moderna propõe que não se use “algum” com sentido negativo antes de substantivo, somente depois dele. Não se devem usar, portanto, frases como “Não recebi qualquer palavra de apoio” nem “Não recebi alguma palavra de apoio”, mas sim estas:

 

– Não recebi nenhuma palavra de apoio.

– Não recebi palavra alguma de apoio.

 

Em “que viva de guardar alheio gado / de tosco trato, de expressões grosseiro / dos frios gelos e dos sóis queimado”, tenciona o autor dizer que não vive de cuidar do gado dos outros, não é mal-educado, rude, nem trabalha ao sabor das intempéries.

 

Em “Tenho próprio casal e nele assisto”, Gonzaga usou um verbo raríssimo atualmente: assistir no significado de “morar”: “… e nele assisto”, ou seja, “… e nele moro”. Ele mora na pequena propriedade que possui e dela colhe frutas e legumes, produz vinho e azeite e cria ovelhas. E tudo isso, “graças à minha estrela”, ou seja, obra do destino.

 

A frase apresentada, portanto, significa o seguinte: “Moro na minha pequena propriedade rural”.