Eu sei que vou te amar… – Gramática On-line

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Eu sei que vou te amar…

 

Quando se escreve um poema, não há necessidade de se preocupar com a gramática padrão; há o direito à licença poética, que é a liberdade de transgredir as normas da poética ou da gramática. É o que ocorre com esses belíssimos versos de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. De acordo com a gramática normativa, a colocação do pronome “te” é inadequada. Vejamos por quê:

 

Os pronomes oblíquos átonos (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes) podem ser colocados em três lugares distintos na oração: antes, depois ou no meio do verbo. Para isso, as seguintes regras devem ser seguidas:

 

1) Colocação do pronome antes do verbo (Próclise): Na língua portuguesa culta só ocorrerá a próclise quando houver uma palavra atrativa antes do verbo. São elas: advérbios (aqui, hoje, sempre, talvez…), pronomes indefinidos (tudo, nada, ninguém, todos…), pronomes interrogativos (que, quem, qual…), pronomes relativos (que, quem, qual, onde, quanto, cujo), pronomes demonstrativos neutros (isto, isso, aquilo) e conjunções subordinativas (que, quando, embora, conforme, enquanto, se, caso…).

 

Ocorrerá próclise também quando a frase for iniciada pela preposição “em” seguida de verbo no gerúndio (terminado em “ndo”) e quando a oração for exclamativa. Leia alguns exemplos:

 

– Sempre me esqueço do nome dela.

– Ninguém o procurou.

– Que se espera do Governo?

– Isso me comoveu.

– Quando me encontrei com ele, acalmei-me.

– Em se tratando de poesias, Vinícius era perfeito.

– Deus te proteja!

 

Certamente você está pensando “Caramba! Vou ter de memorizar tudo isso?” Na verdade, não, pois, no Brasil, usa-se próclise em qualquer circunstância, menos quando o pronome estiver no início do período. O uso da próclise, portanto, é permitido com ou sem palavra atrativa, a não ser no início do período. Por exemplo:

 

– Ela dedicou-se aos filhos.

– Ela se dedicou aos filhos.

 

2) Colocação do pronome no meio do verbo (Mesóclise): Na língua portuguesa culta só ocorrerá a mesóclise quando não houver palavra atrativa e o verbo estiver no futuro do presente (eu irei) ou no futuro do pretérito (eu iria). O pronome deverá ser colocado após a letra “r”. Por exemplo: “

 

Obedecerei aos regulamentos: o substantivo “regulamentos” será substituído pelo pronome “lhes”:

Obedecer-lhes-ei. Nesse caso, não poderia ocorrer a próclise, já que o pronome ficaria no início do período, mas tanto se poderia dizer “Eu obedecer-lhes-ei” quanto “Eu lhes obedecerei”.

 

3) Colocação do pronome depois do verbo (Ênclise): Na língua portuguesa culta só ocorrerá a ênclise quando não houver palavra atrativa nem o verbo estiver no futuro do presente ou no futuro do pretérito. Por exemplo:

 

– Dê-me a oportunidade de falar a verdade. Nesse caso não poderá ocorrer a próclise, já que o pronome ficaria no início do período, mas tanto se poderia dizer “Ele deu-me a oportunidade” quanto “Ele me deu a oportunidade”.

 

Quando houver locução verbal (dois ou mais verbos, indicando apenas uma ação ou qualidade), existem as seguintes regras:

 

Se o verbo principal (o que indica a ação ou a qualidade) estiver no infinitivo (terminado em ar, er ou ir) ou no gerúndio (terminado em ndo), pode-se colocar o pronome ligado a este verbo ou ao outro, o denominado auxiliar. Se ele for colocado junto do principal, ocorrerá a ênclise; se for colocado junto do auxiliar, seguem-se as regras anteriores. Por exemplo:

 

– Ela não está penteando-se.

– Ela não se está penteando.

Ênclise no gerúndio ou próclise no auxiliar por haver palavra atrativa (não).

 

Se o verbo principal estiver no particípio (terminado em “ado” ou “ido”), não se pode colocar o pronome junto dele, somente junto do auxiliar. Por exemplo:

 

– Ela se tem dedicado aos filhos.

– Ela tem-se dedicado aos filhos.

Próclise ou ênclise no auxiliar por não haver palavra atrativa e o pronome não estar no início da frase.

 

Conclui-se, então, que o primeiro verso de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, sem a licença poética, deveria ser assim escrito:

 

– Eu sei que te vou amar.

– Eu sei que vou amar-te.

 

Ficaria “maravilhoso”, não é mesmo (ironia). Claro que ficou melhor como eles escreveram! Ainda bem que há a licença poética. Se eles, porém, quisessem optar pela língua padrão, teriam de ter escrito uma dessas duas frases.

 

Somente mais um detalhe: quando houver dupla atração, o pronome poderá ficar entre ambas ou após elas. Por exemplo:

 

– Espero que se não aborreça comigo.

– Espero que não se aborreça comigo.