Eu sempre a quis, mas nunca lhe quis. – Gramática On-line

Gramática e Produção de textos
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Eu sempre a quis, mas nunca lhe quis.

Uma das matérias mais “odiadas” pelos estudantes se chama análise sintática. Muitos são os que condenam seu estudo em sala de aula, dizendo ser desnecessário ao aluno estudar tantos nomes inúteis. “Que adianta saber o que é o sujeito, o objeto direto, o adjunto adnominal, o complemento nominal, etc e tal?” Respondo-lhe que de nada adianta mesmo, mas o importante não são os nomes. Eles são necessários para que haja a nomenclatura, mas não são o essencial no estudo da análise sintática. O mais importante é o aluno entender a montagem da estrutura frasal.

Saber análise sintática é saber interpretação de texto. Talvez por isso haja tantas dificuldades para se compreender um texto. Só se entende uma frase se souber quem é o sujeito do verbo, se este indica ação, fato, qualidade ou estado do sujeito, se há complemento ou não, quais as circunstâncias apresentadas pelo autor, se há elemento possuidor, se um adjetivo exige complemento, se houve o uso de pronomes para evitar a repetição de substantivos.

Relação lógica

 

Tudo isso é análise sintática, cujo significado é o seguinte: análise: separação ou desagregação das diversas partes constituintes de um todo; sintático: relativo à sintaxe; sintaxe: parte da gramática que estuda a disposição das palavras na frase e a das frases no discurso, bem como a relação lógica das frases entre si.

 

Aí é que reside o problema de compreensão de leitura. Quem não sabe análise sintática não compreende a relação lógica das frases. Não entende o texto. Por isso muitos não entenderiam a seguinte frase: “Eu sempre a quis, mas eu nunca lhe quis”.

 

Essa foi a frase que um rapaz desalmado disse à sua namorada no momento de “terminar” o namoro com a pobrezinha. Ela, a princípio, nada entendera, mas, depois, estimulada por uma amiga, que também ficara sem entender coisa alguma, pesquisou em um dicionário de boa qualidade o significado da frase. Ficou estarrecida! Também, pudera! O descarado do agora ex-namorado simplesmente dissera a ela que a desejava, mas que não a estimava. Explico mais claramente:

 

Querer é desejar ou estimar

 

O verbo querer tem várias acepções e predicações. Dentre elas, será verbo transitivo direto, ou seja, verbo que exige um complemento sem preposição, chamado de objeto direto, quando significar desejar (Quem quer, quer algo ou alguém = Quem deseja, deseja algo ou alguém). Sempre que o objeto direto for um elemento de terceira pessoa, poderá ser representado pelos pronomes oblíquos átonos “o, a, os, as”. O rapaz disse que sempre quis a namorada, sempre desejou a namorada. O objeto direto “a namorada” pode ser substituído pelo pronome “a”: ele sempre a quis; sempre a desejou.

 

O verbo querer será transitivo indireto, ou seja, verbo que exige um complemento com preposição, chamado de objeto indireto, quando significar estimar. A preposição exigida pelo verbo querer é a prep. a (Quem quer, quer a alguém = Quem estima, estima alguém). Sempre que o objeto indireto for um elemento de terceira pessoa, poderá ser representado pelos pronomes oblíquos átonos “lhe, lhes”, salvo algumas exceções, que veremos em outra oportunidade. O rapaz disse que nunca quis à namorada, ou seja, nunca estimou a namorada. O objeto indireto “a namorada” pode ser substituído pelo pronome “lhe”: ele nunca lhe quis; nunca a estimou (Estimar é verbo transitivo direto).

 

Ele sempre quis a namorada. Ele nunca quis à namorada. Um sem acento indicador de crase; outro com. Por quê?

 

Crase é a junção da preposição “a” com o artigo “a” ou “as” ou com pronome demonstrativo (Estudaremos os pronomes demonstrativos em outra oportunidade). Essa junção é representada pelo acento grave ( ` ). O nome do acento, portanto, não é crase, mas sim acento grave.

 

Quando o verbo querer significar desejar não exige preposição alguma; quando significar estimar, exige a prep. “a”. O substantivo “namorada” exige o artigo “a”. Ocorrerá, portanto, a junção da preposição com o artigo somente quando “querer” significar “estimar”. Por isso sempre desejou a namorada = sempre quis a namorada, sem o acento indicador de crase e nunca estimou a namorada = nunca quis à namorada com o acento.

 

A frase apresentada no início de nosso texto está, portanto, adequada ao padrão culto da língua:

 

Eu sempre a quis, mas eu nunca lhe quis.

 

Tenha certeza, caro leitor, de que os estudos sintáticos melhoram o nível de compreensão de um texto; melhoram a cultura, portanto.