Já deveríamos ter resolvido isso. – Gramática On-line

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20 de junho de 2018
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20 de junho de 2018

Já deveríamos ter resolvido isso.

 

Há algum tempo, ouvi uma entrevista de um eminente político londrinense, que elaborou um frase bastante interessante do ponto de vista gramatical. Quem o ouviu, entendeu perfeitamente o que ele quis dizer, mas, aos meus ouvidos, soou assaz estranha a frase.

 

Disse ele o seguinte: Já éramos para ter resolvido isso. Quis ele dizer que Já deveríamos ter resolvido isso. O verbo “ser” entrou na construção da frase como um vício de linguagem. Os brasileiros usamo-lo indevida e comumente como parte de orações equivalentes à usada pelo tal político. Ele é, porém, uma anomalia sintática – o verbo, não o político –; não há parâmetro gramatical aceitável para esse uso.

 

A expressão ser + para + infinitivo (era para eu fazer; era para ele dizer; é para nós estudarmos, era para nós termos resolvido isso, etc.) é uma corruptela – alteração, modificação – de uma estrutura mais bem construída, como Já era possível para nós ter resolvido isso, em que o pronome nós não funciona como sujeito do verbo ter, como aparenta, mas sim como complemento do adjetivo possível, por isso o verbo ter fica na forma não flexionada, não concordando com o pronome nós. É inadequada, portanto, a forma Já era possível para nós termos (ERRADO) resolvido isso.

 

Sintaticamente, a frase apresentada tem como sujeito uma oração (que é representada por um verbo como o núcleo). Observe:

 

– O que era possível? Resposta: ter resolvido isso, que é o sujeito do verbo ser (o núcleo é a estrutura verbal ter resolvido, que é o que é possível), e, quando um sujeito é representado por uma oração, o verbo tem de ficar no singular: era, e não “éramos”.

 

– O adjetivo possível pede uma complementação: era possível para quem? Resposta: para nós. O pronome nós, portanto, liga-se ao adjetivo possível, não ao verbo ter.

 

Há ainda, no entanto, uma inadequação na frase tida como ‘bem construída’: o verbo ser não deveria ser conjugado era, mas sim teria sido, pois era indica uma ação do passado realizada:

 

– Eu ERA escoteiro quando Londrina ERA a Capital Mundial do Café, na década de 70.

 

A construção teria sido indica uma possibilidade passada. Por exemplo:

 

– Londrina teria sido uma cidade melhor se tivesse tido melhores governantes.

 

Por isso o adequado é o seguinte:

 

– Já teria sido possível para nós ter resolvido isso.

 

Resolvido o problema gramatical da frase apresentada, surge outra pergunta: se o político eminente cometeu tal equívoco gramatical, este deve ser comum aos outros cidadãos. E o é (Estranhou a construção E o é? Explico-lhe: esse o substitui o adjetivo comum; é equivalente a isso: E é isso, ou seja E é comum).

 

Usamos a estrutura ser + para + infinitivo constantemente. É a linguagem livre, é o chamado ‘português brasileiro’. Tudo bem. Não serei o chato a dizer que não se deve usar isso se eu mesmo o uso constantemente. O maior problema foi a concordância efetivada pelo “politico”: “… éramos para ter…”.

 

Essa construção talvez tenha sido motivada por uma estrutura verbal semelhante, porém adequada ao padrão culto: a locução verbal, formada pelo verbo principal, o que indica a ação ou a qualidade do sujeito, e o auxiliar, que concorda com o sujeito em número e pessoa (eu, tu, ele, nós, vós eles), que pode ser ser, estar, ter, haver, dever, poder, ir, precisar, continuar:

 

– estou lendo; havias falado; iremos reclamar; precisam estudar; continuamos a tentar…

 

Como é o verbo auxiliar de uma locução que concorda com o sujeito e como, na frase apresentada pelo político, aparentemente há a formação de uma locução verbal, houve o equívoco por parte do cidadão; por isso ele disse o que disse.

 

Deveria ter dito, porém, “Já era para termos resolvido isso”. Se, mais uma vez porém, quisesse usar a língua padrão, o adequado seria o seguinte:

 

– JÁ DEVERÍAMOS TER RESOLVIDO ISSO.