Tinha uma pedra no meio do caminho. – Gramática On-line

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20 de junho de 2018
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20 de junho de 2018

Tinha uma pedra no meio do caminho.

 

NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA PEDRA

 

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Carlos Drummond de Andrade, ao escrever “tinha uma pedra no meio do caminho”, utilizou-se da fala popular, esquivando-se da Gramática padrão, já que o verbo “ter” não deve ser usado no sentido de “existir, ocorrer, acontecer”. No seu lugar, se Drummond quisesse utilizar a norma culta, ele deveria ter usado o verbo “haver”: havia uma pedra no meio do caminho ou ainda o verbo existir: existia uma pedra no meio do caminho.

 

O verbo haver, quando usado no sentido de existir ou de acontecer, ou ainda quando indicar tempo decorrido é verbo impessoal, ou seja, não tem sujeito. O termo que parece ser o seu sujeito é o complemento do verbo. Como ele não tem sujeito, não tem com quem concordar. Deve ficar, por isso, na terceira pessoa do singular obrigatoriamente. Drummond, porém, usou da prerrogativa de se utilizar da licença poética, ou liberdade poética, que é a “autorização” ao erro que os poetas, compositores e escritores em geral têm.

 

Veja alguns exemplos:

 

– Houve vários terremotos no Japão.

Nesse exemplo, o verbo haver é impessoal, pois significa acontecer (Aconteceram vários terremotos no Japão.).  Não tem, então, sujeito. O que parece ser o seu sujeito (vários terremotos) é o complemento do verbo. Por não ter sujeito, fica na terceira pessoa do singular.

 

– Há quatro placas tectônicas sob o Japão.

Nesse exemplo, o verbo haver é impessoal, pois significa existir (Existem quatro placas tectônicas no Japão). Não tem, então, sujeito. O que parece ser o seu sujeito (quatro placas tectônicas) é o complemento do verbo. Por não ter sujeito, fica na terceira pessoa do singular.

 

Mas, por que Carlos Drummond de Andrade escreveu “tinha uma pedra” e não havia uma pedra? Já se explicou que ele se utilizou da fala popular, mas, por que na fala popular se usa “ter” inadequadamente no lugar de “haver”?

Porque existe uma possibilidade de “ter” ser usado no lugar de “haver” adequadamente: quando houver um tempo verbal composto, que é a formação de uma locução verbal cujo verbo auxiliar é “ter” ou “haver” e o verbo principal é outro verbo no particípio, verbo terminado em –ado ou em –ido:

 

– Ele tinha estudado para a prova.

– Ele havia estudado para a prova.

 

Na formação dos tempos verbais compostos, ter e haver têm sujeito e com ele concordam. Se, portanto, as frases apresentadas tivessem como sujeito “eles”, ficariam assim estruturadas:

 

– Eles tinham estudado para a prova.

– Eles haviam estudado para a prova.

 

 

Como nesses casos – nos tempos verbais compostos – o verbo “ter” e o verbo “haver” são “sinônimos”, muitos usam indiscriminadamente “ter” no lugar de “haver”, cometendo, assim, uma inadequação gramatical. Se o verbo “haver” não formar locução verbal com outro verbo no particípio e se ele significar “existir” ou “acontecer” ou ainda se ele indicar “tempo decorrido”, não se pode usar no lugar dele o verbo “ter”, cujo significado – quando não formar locução verbal com outro verbo no particípio – é possuir.

 

Nos exemplos apresentados (Houve vários terremotos e Há quatro placas tectônicas), o verbo “ter” não poderia, portanto, ser usado por quem quisesse respeitar a norma culta.

Mais um detalhe: se o verbo “haver” se unir a outro, como “dever, poder, ir, continuar”, entre outros, para formar uma locução verbal, sendo ele o verbo principal, transfere a esses a impessoalidade, ou seja, esses verbos devem ficar no singular:

 

– Pode haver outros terremotos.

– Deve haver mais placas tectônicas com risco iminente.

– Continuar a haver riscos naquela área.