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Não vão ter mais vídeos? Havê-los-á!

Prof. Dilson Catarino

Prof. Dilson Catarino

Carlos Drummond de Andrade, considerado o maior poeta brasileiro do século XX, escreveu, em julho de 1928, uma de suas poesias mais conhecidas: No meio do caminho.

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Na época, Drummond foi duramente criticado por ter elaborado uma poesia tão simples, tão cheia de repetição e, segundo seus algozes, tão monótona e tão vazia de sentido. ei-la:

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No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminha tinha uma pedra.

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Drummond fez parte do Modernismo brasileiro. Uma das características dos autores modernistas era o uso de linguagem simples e coloquial, ou seja, da linguagem do cotidiano, do dia a dia da população.

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Naquela época já estava consagrado o uso do verbo “ter” no sentido de existir. CDA nada mais fez que registrar em sua poesia esse uso.

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Hoje, mais de noventa anos depois, esse verbo reina poderoso nas frases cotidianas. Pouquissimamente se ouvem frases como “Há algum problema?”, “Houve reuniões intermináveis”, “Haverá mais vídeos sobre o assunto?
O que impera é “Tem algum problema?”, “Teve reuniões intermináveis”, “Terá mais vídeos sobre o assunto?”

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Modernamente, mais uma inadequação se juntou ao uso popular: o verbo “ter” no plural, concordando com o termo plural que se liga a ele: “Tiveram reuniões”; “Vão ter mais vídeos?”

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A Gramática padrão diz que, quando houver o sentido de “existir” ou de “acontecer” ou ainda quando houver a indicação de tempo decorrido, não se deve usar o verbo “ter“, e sim o verbo “haver“, sempre na terceira pessoa do singular, por ser ele, segundo a norma culta, um verbo impessoal, ou seja, um verbo que não tem sujeito. Por exemplo:

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– Há três meses não o vejo. (E não “Tem três meses que não o vejo”)
– Havia uma pedra no meio do caminho. (E não “Tinha uma pedra…)
– Há algum problema? (E não “Tem algum problema?”; a não ser que haja sujeito: “Você tem algum problema?”)
– Houve reuniões intermináveis. (E não “Teve/Tiveram reuniões intermináveis”; a não ser que haja sujeito)
– Haverá mais vídeos? (E não “Terá/Terão/Vai ter/Vão ter mais vídeos”; a não ser que haja sujeito)

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Havê-los-á“. Por quê?

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Deve-se usar mesóclise, ou seja, o pronome oblíquo átono (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes) no meio do verbo, quando não houver palavra atrativa e o verbo estiver no futuro do presente ou no futuro do pretérito.
É o que acontece no título deste texto: O verbo “haver” está no futuro do presente – haverá -, e há o pronome oblíquo “os”.