O professor chamou o aluno indisciplinado. – Gramática On-line
Nina perdoou a Carminha, mas Tufão não lhe perdoou.
11 de julho de 2014
Amo-a.
11 de julho de 2014

O professor chamou o aluno indisciplinado.

Ambiguidade, ou anfibologia, é, na gramática, a qualidade ou o estado do que é ambíguo, que, por sua vez, significa “que se pode tomar em mais de um sentido”. É o que ocorre com a frase apresentada no título deste texto: “O professor chamou o aluno indisciplinado”. Vejamos por quê:

O verbo “chamar” tem vários significados. Na maioria deles, é usado sem preposição alguma, com sentido próximo a “convocar”:

– O comandante chamou as tropas.
– O padre chamou os fiéis para a missa.
– O ministro chamou o embaixador.

No sentido de “invocar”, deve ser usado com a preposição “por”:

– A garotinha chamava pela mãe desesperadamente.
– Nos momentos de aflição, chama por Deus.

No sentido de “dar qualidade positiva ou negativa”, o verbo “chamar” tanto pode ser usado com a preposição a quanto sem ela, e a qualidade, denominada sintaticamente de “predicativo do objeto”, pode ou não ser introduzida pela preposição de. Se, por exemplo, alguém chamar outrem de indisciplinado, haverá quatro possibilidades de construção frasal. Suponha-se que o professor tenha atribuído a qualidade de indisciplinado a um aluno. Haveria estas possibilidades:

– O professor chamou o aluno indisciplinado.
– O professor chamou o aluno de indisciplinado.
– O professor chamou ao aluno indisciplinado.
– O professor chamou ao aluno de indisciplinado.

Sabe-se que o complemento de um verbo sem preposição pode ser representado pelos pronomes o, a, os, as. As duas primeiras frases, portanto, podem ter as seguintes substituições:

– O professor chamou-o indisciplinado.
– O professor chamou-o de indisciplinado.

Sabe-se também que o complemento de um verbo com a preposição a pode ser representado pelos pronomes lhe, lhes. As duas últimas frases, portanto, podem ter as seguintes substituições:

– O professor chamou-lhe indisciplinado.
– O professor chamou-lhe de indisciplinado.

Há, entretanto, um problema sintático que provoca ambiguidade numa das frases apresentadas, que é o seguinte: a qualidade indisciplinado pode ser um termo que especifica ou delimita o significado de aluno ou um termo que expressa um atributo ou uma circunstância a aluno. Aquele é denominado sintaticamente de adjunto adnominal; este, de predicativo do objeto. Aquele indica a existência definitiva da qualidade; este, transitória. Um exemplo disso:

O aluno esforçado consegue boas notas, em que o aluno é esforçado;

O aluno, doente, não pôde comparecer às aulas, em que o aluno está doente. Aqui, predicativo; lá, adjunto adnominal.

Numa das frases, então, o aluno é sabidamente indisciplinado; noutra, não o é, e a qualidade foi-lhe atribuída pelo professor, ou é-o, mas a qualidade foi atribuída somente naquele instante. No primeiro caso, não há, por conseguinte, o significado de “dar qualidade”, pois ela já existe: o aluno é indisciplinado. O verbo chamar, portanto, não pode ser usado com a preposição a, pois só será usada nesse sentido. Não há ambiguidade, portanto, em “O professor chamou ao aluno indisciplinado” nem em “O professor chamou ao aluno de indisciplinado”. Também não há ambiguidade em “O professor chamou o aluno de indisciplinado”, pois só se usa a preposição “de” diante da qualidade quando esta for predicativo.

O verbo “chamar”, na frase apresentada no título deste texto (O professor chamou o aluno indisciplinado) é a que pode ter, então, dois sentidos: no significado próximo de “convocar”: O professor convocou o aluno que é sabidamente indisciplinado; e no significado de “dar qualidade”: O professor atribuiu a qualidade de indisciplinado ao aluno. Há ambiguidade, ou anfibologia, nessa frase. Caso alguém queira construir frase semelhantes, deve-se dar preferência às outras três.